Diana

Diana tem os olhos grandes e um bico emburrado, embora saiba sorrir também. Hoje está com os cabelos enroladinhos bem esticados e presos por duas tranças laterais. A amarração foi tão forte que criou um caminho de couro cabeludo no meio da cabeça. Sobre a testa, os fiapinhos soltos mostram que o penteado foi feito antes de ir pra escola. Agora é depois da escola. É por isso que está com raiva. Queria ir pra casa. E a mamãe ainda inventa de passar no salão de beleza. Pelo menos ganhou colo e pôde enfiar o rosto entre o cangote materno e os cabelos com luzes cheirosos dela. 

Diana é pequena para a idade e tem as pernas e braços bem gordinhos, cheios de pelinhos pretos. Nessa quinta feira está de vestido rosa claro com bolinhas azuis escuras (que bate em suas canelas) e um tênis preto com o solado alaranjado reluzente. Diana está colorida como um jardim florido. As bochechas também estão pintadas. Será que foi a canetinha na aula de Artes? Não tem como saber. Diana pouco fala. Embora dos seus olhos não me escape: aquela cabecinha de criança fervilha de ideias e pensamentos. Mas palavras ditas, só se for no ouvido da sua progenitora. 

- Oi, Diana! Fala com a tia. Estava com saudades! - diz alegremente a moça com as unhas em processo de tingimento. 

Diana nada responde. Só observa firme com olhos esbugalhados. Duas bilocas pretas. Nem um risinho no canto da boca a moça conseguiu. Pra mim, a pequena analisa esse cumprimento e acha graça da posição da cliente. Mas nada revela com a pequena boca imóvel. 

- Desce, filha! Deixa eu ver esses cremes aqui. Guarda sua mochila nesse banco perto de você. 

Diana grudou as pernocas na cintura da mãe. Mas acabou descendo. Espertinha. Puxou logo o celular do bolso e foi saindo para a porta do salão. Debruçou na calçada que dá para a rua e ficou mexendo no aparelho. Saiu até umas musiquinhas. Depois veio correndo pra dentro. E se pendurou na prateleira de escovas. Pegou o molhador e aspergiu na moça da unha. A mulher riu. A menina não. Será que Diana queria limpar o esmalte preto da unha?

Continuou a brincadeira. Foi até o banheiro e abriu a torneira. Ficou na ponta dos pés para molhar as mãozinhas. Conseguiu. Pulou, pulou, ufa! Pegou a toalha. Enxugou e a deixou no chão. Diana estava inventando histórias? Talvez brincasse de que a água que saía da torneira era uma cachoeira. A pia podia ser um lago que estava sendo sugado por um buraco negro gigante. A menina era uma heroína. E depois de conseguir tapar o ralo, salvou a natureza. E foi se secar. Mas Talvez, Diana só queria lavar as mãozinhas e pronto. O fato é que se ouvia o tempo todo:

- Diana, minha filha! Não tava querendo dormir agora a pouco, menina? Para de tanta "mexelança"!

A dona do espaço de beleza achava era graça.

- Quero ver essa menina soltar uma gargalhada!

- Acho que ela não gosta mesmo de sorrir. - falou a mãe. Depois balançou a cabeça e olhou pra filha.

Diana retribuiu o olhar com seus olhos pretos como a noite.

- Mãe, eu quero as balinhas da professora. Me dá!

- Agora não, filha. 

Diana fez que ia chorar. O coração da mãe amoleceu. Colocou dois doces, um em cada mãozinha. Foi aí que ela pareceu querer abrir uma janelinha com seus lábios. Mas foi alarme falso. Antes de comer as balas, ficou observando as duas. Trocou  de mão. Abriu e saboreou. Olhou aquelas pessoas que a observavam no salão de beleza. Olhou pra si mesma e sentou. Diana é só uma criança. E ainda que lhe faltasse a vontade de rir naquele momento, tenho pra mim que a menina sabia muito bem o que estava acontecendo e decidiu ficar do jeito dela.

Eu li em seus gestos, na sua desenvoltura e pseudo independência: era livre para fazer o que quisesse, até mesmo não sorrir, quando todos mandassem. Vivia em seu mundo da infância e ali cultivava sua vivência de criança, seu pequeno cotidiano feito de detalhes. Ser miúda, um dia descobriria, tinha grandes vantagens. Diana era de verdade. E nem precisava fingir vontade de nada. Nem mexer os músculos do rosto só para agradar quem lhe pedia. Era processo natural. Quando crescesse, refletiria sobre a facilidade da falsidade humana e em como lhe era fácil ser inteira na meninice.

Diana com seus bracinhos cabeludos e gordinhos, seus cabelos enrolados e presos, seus olhos esbugalhados e bochechas fofinhas. De nada precisava da ideia de beleza feminina vendida ali no salão. Diana era a mais desenvolta de todas. E talvez por isso causasse espanto e dúvidas na cabeça cheia de acessórios dos adultos. Pra ser feliz não precisava sorrir o tempo inteiro. Sem compreender, a pequena já sabia disso. As crianças têm uma ligação com o supra sentido da vida. Ah, se tem!

Pena que um dia crescem, viram adultos e se esquecem dos segredos que lhe foram revelados no início da caminhada. Aí, a busca começa. E a volta de todas as coisas também. Mas aí é a história de Diana adulta. Por enquanto, ela queria só ficar ali, sem sorrir, sentindo o gosto doce e bom de suas guloseimas recebidas no colégio. 

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