Postagens

Mostrando postagens de 2016

A. I. 2016

(Nathália Coelho)
Digere e vive.
[Não dá tempo de sofrer súbito mal.]
Digere e dirige.
[Não dá tempo de olhar para trás.]
Digere e regurgita.
Come o vômito.
- IMPERATIVO.
Lá vem mais.
Digere e vive.
há espaço, [aperta o sapato.]
se espreme em si mesmo.
Digere.
E não reaja.
finge demência.
isso passa.
Mas lá vem mais.
Digere, digrida.
não vão te ouvir.
sentir jamais.
Sem discussão
é em vão.
Digere sem diálogo.
Só digere.
Goela abaixo.
Porque lá vem mais.

Por ora.

Tudo é por ora
Nada é para sempre.
Prefira o "por enquanto"
Siga em frente. A minha incompletude
não me equaciona
em fórmulas prontas.
Posso até me resolver no momento.
Mas depois me esqueço
e me perco:
da equação,
da fórmula,
do resultado.
Que jurava já saber! Vê. Tudo é por ora
Nada é para sempre.
Prefira o "por enquanto"
Siga em frente... (Nathália Coelho)

Perseguição Policial

Imagem
Era meio dia. O jornal abriu com uma perseguição policial na Avenida Hélio Prates. O cinegrafista estava super equipado. Uma go pro na cabeça dava a dimensão dos passos dos bandidos. A câmera na mão para fora da janela do carro mostrava o rosto dos fugitivos direitinho. A Transmissão por terra era via mochilink. Também pelo helicóptero. Uma equipe acompanhando por fora. De casa, um barraco apertado no Sol Nascente, eu assistia a tudo. Eram homens conhecidos da comunidade. De repente eles começam a atirar. Acertam o carro da polícia e o cinegrafista pega a imagem certeira. Vaza o áudio: "pqp!! Olha essa imagem. Peguei. Meu Deus do céu, que porra é essa?" O bandido permanece atirando. Agora na câmera. Tudo ao vivo. Eu vendo da TV. A imagem fecha porque provavelmente o equipamento parou de funcionar. Mas a central já gravou a cena, que fica repetindo em looping o "pqp!" para o telespectador. Imagino que a audiência está alta. De repente gritam na rua e me assusto. &q…

Casa dos Artistas

Imagem
- A eliminada de hoje é Nathália Coelho! Vem pra cá!
Apareço, descendo de um elevador. Uso pijamas de calça comprida, meias pretas e um scarpin. Seguro uma coruja de pelúcia nas mãos e uma mala.
- Oi, Nathália! Seja bem vinda novamente à vida real!
- Obrigada, Sílvio.
- Quais são seus planos?
- Ah, agora vou voltar pra Brasília. Focar no mestrado. Arranjar emprego.
- Não tem medo da fama!?
- Fama? Nada! Lá na capital só tem fama quem tem dinheiro. Fui eliminada, tô tranquila. - sorrio.
- Muito obrigada pela sua participação e boa sorte!
Saio de cena devagar. Vou descendo uma escada rolante até sumir. Mas corta a imagem. Lá embaixo, um suculento bolo de chocolate me aguarda. Volta Silvio Santos. Ele continua:
- Má oê! Esse foi mais uma noite de Casa dos Artistas! Tchau! Com Deus! Acordo. Rindo. Não era nem Big Brother. Mas "Casa dos artistas". Subconsciente muito maneiro, esse meu. Bom dia!

A vida ou o Jornalismo?

Imagem
Brasília tinha praia. Um litoral lindo, que margeava as casas do Lago Sul e Norte. Era fim da tarde e eu estava trabalhando. A redação, ampla e arejada com grandes janelas de vidro, davam direto para a Esplanada dos Ministérios. Correria normal, passa um rádio aqui, atende um telefone ali, discute uma pauta, digita, monitora sites. De repente, uma colega chega gritando, sem forças: "Alerta de Tsunami! Alerta de Tsunami! Deu na rádio escuta." Os rostos se apavoram. Correm todos para ver com seus próprios olhos. As ondas gigantes já se aproximam. O primeiro a ser engolido vai ser o Congresso Nacional. Mas vai chegar na gente. Coração acelera e paralisa as pernas. O que fazer, meu Deus? Instaura-se um ambiente de sofrimento e desespero. Cada um corre prum lado, tentando se salvar. Pego as minhas coisas. Ouço até o barulho da chave do carro entre meus dedos. Já estou chegando na porta de saída quando o meu chefe segura o meu braço e diz: - Você não vai. - Por que? - Porque precisam…

Falemos da ausência de amor, falemos sobre Louise

Por Nathália Coelho(Publicado originalmente no blog do Grupo de Pesquisa Epistemologia do Romance, o qual eu faço parte)
Estava na Universidade de Brasília na noite da última quinta-feira. Assim como Louise e outras tantas mulheres. Cumpríamos nossos papeis sociais, num território (via de regra) democrático e de fomento à formação do ser humano. Estávamos ali porque acreditamos (via de regra) que a educação pode modificar o homem. E pensando assim tudo é cor-de-rosa. Mas aquela quinta-feira descoloriu o cenário. Também o desmontou. E veio para reafirmar que nem todas as coisas são como aparentam ser.
Enquanto eu tomava um açaí depois da aula, Louise era obrigada a ingerir uma substância tóxica que lhe tiraria a vida. Eu sorria, descontraída. Louise não teve tempo nem de chorar. As lágrimas ficaram embargadas em detrimento ao gesto cruel e frio do seu algoz. Eu peguei meu carro e o dirigi para casa. Louise, já falecida, foi colocada dentro do seu próprio carro e levada para um matagal.…