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Mostrando postagens de Maio, 2012

Um trocado e um ursinho.

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Era véspera do dia das mães e as Lojas Americanas de Taguatinga sul estava lotada às dez da manhã. Um movimento incessante de pais e filhos, filhos e mães, somente filhos de todas as idades. Nessa época todos viram "filhos" por identidade e qualquer mulher se torna uma mãe em potencial. Meus olhos foram induzidos a ver pelos óculos escuros somente o ecrã de família, caminhando, conversando, esperando, escolhendo, comprando, presenteando. Era uma efervescência de produtos espalhados pelo caminho, coisas fora do lugar, um funcionário anunciando as promoções pelo alto-falante. Lá fora, um sol forte insistia em brilhar por entre as nuvens de um dia mais ou menos cinzento.      Daquela massa, destoava uma senhora com idade de vovó à moda antiga, com cabelos brancos, rosto afável, gordinha e com roupas coloridas - na verdade um conjunto de bermuda e camisa. Carregava enrolado no pescoço curtinho um xale, nos ombros uma bolsa de couro marrom de modelo tradicional, nas mãos duas …

A mãe das bonecas

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- E eu não vou ganhar um presente não? Sou mãe e professora das minhas bonecas. Essa foi a resposta que Marcela ouviu da filha de três anos, Martina, ao presentear a mãe e receber o presente feito pela filha na escola no sábado que antecede o dia das mães. Martina trouxe o embrulho para casa na sexta feira e não aguentou de ansiedade. Guardou só um dia e resolveu entregar logo. Marcela agradeceu e aproveitou a oportunidade para dar o mimo da mamãe-vovó. Foi assim que Martina indagou as duas. Marcela tinha um trunfo na manga. Havia comprado um perfume para a filha. Foi lá dentro, pegou o pacote e disse: - Filha, você tem presente, sim! Suas filhas me pediram para te entregar essa sacola aqui. - colocou-a nas pequenas mãos da menina. Martina abriu um largo sorriso,  encheu os olhos de água e abraçou o presente. - Verdade, mamãe!? Foi a Lala, a Lili, a Fafá! E foi abraçando uma boneca por vez com o olhar emocionado. Martina pequenina e inteligente já havia descoberto dentro de si a graça e o a…

O dia em que o bandido apanhou de uma mulher

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Ela entrou no ônibus com passos firmes, ajeitando o cabelo e com um ar sério e ao mesmo tempo de revolta na face. Deu a bolsa preta para a mãe, que sentou no último lugar vazio do coletivo. Ela ficou de pé. Cabelos curtos amarrados em rabo de cavalo, óculos de sol usado como tiara. Calças pretas e uma blusa vermelha de costas nuas. Uma sapatilha de saltinho. Tinha um olhar de vitoriosa, melhor, mulher vitoriosa.     - Mãe, me dá esse celular aí.     - Toma, filha.      A moça pegou o aparelho e ligou resmungando.     - O danado ainda desligou. Sacana. Devia ter apanhado mais.    Uma outra senhora que estava sentada entre mãe e filha não aguentou de curiosidade e questionou:     - Você foi roubada?     - Quase. Porque eu dei um coro no bandidinho e ele me devolveu o cartão de passe e meu celular.    - Moleque assim deveria morrer!! Eu sou crente, mas nessas horas sou a favor de polícia que mata marginal. - disse a mãe, num largo sorriso.    - Foi assim - continuou a moça - Entramos no ônibu…

Você.

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Tenho sonhado com você esses dias. Não sei se te conheço ou se o nosso encontro ainda vai acontecer. Mas dentro de mim, algo lateja vontade e calmaria. Meu consciente sabe de sua existência e se conforma de certa forma com isso. Por enquanto. Afinal ele entende que a troca de olhares ainda precisa esperar. Talvez precise acontecer em tal ponto da estrada em que ambos estejam preparados para caminhar num passo só. Mas já te sinto chegando. Sinto de tal maneira capaz de balançar o coração e se aconchegar perto do peito, pela sensação trazida por um pensamento. Não consigo ver teu rosto. Mas já me visualizei em seus braços, envolvida numa atmosfera doce e cor de rosa. Hoje estamos eu aqui e você em algum lugar. Amanhã juntos. Talvez estejamos trocando as mesas sensações em profundidade. Intensos isolados. O universo há de nos unir. E nas reviravoltas da vida nos emaranhar como novelo de lã. Nas idas e vindas nunca mais ir embora. E viver envolvidos a liberdade de ser a si e ser no outro.…

O quebra-cabeça do Lucas

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- Nathália, presta atenção.  - Pode deixar. - Olha, esse quebra-cabeça é da Turma do Chaves. Então, você tem que pegar essa peça aqui com a cabeça da Chiquinha e ligar no corpo dela, assim. Aí, vem as pernas e os braços. Depois, é a vez do Seu Madruga. O Kiko tá agachadinho aqui, ó. E pronto, vai montando. Agora é a sua vez. - Hum, entendi. Vamos ver se consigo.  Colava de um lado, unia uma peça a outra. Vez em quando ele me ajudava com as pequenas mãozinhas. Acho que consegui. - Aprendi? - perguntei pra ele. - Aprendeu. É assim mesmo. Agora vamos fazer esse aqui, do Seu Girafales e da Dona Florinda. Lucas, 4 anos, e eu estávamos em mais uma brincadeira na casa da vovó Hilda. Ele pegou duas cores de massinha, verde e laranja. Fez uma grande bola com as mãos e depois amassou como uma pizza. Com a faquinha de brinquedo cortou as peças do quebra-cabeça. Em seguida, me disse como montar, orientando-se pelo desenho que formava o todo. O desenho imaginário que ele criou. O mais cheio de detalhes p…

Desabafo em movimento.

- Sabe, ando precisando sair mais. - É mesmo? Agora a senhora vai pra onde? - Vou ali perto do Pátio Brasil. Mas ando desgostosa das coisas. Quando eu era nova, gostava de sair, me vestir bem. Era um prazer escolher uma roupa diferente todos os dias. Eu era bancária. Então sempre tive que andar na linha. Agora não, ninguém liga para uma velha. É isso que sou.
Silêncio. - Mas a senhora está elegante! - Achou, minha filha? Mas isso aqui não é nada. A elegância estava na minha juventude. Eu era linda. Viva! Ria, me divertia. Hoje ando sozinha pelos cantos. Me responde. Por que o marido da gente tem que morrer?  - Ele era mais velho que a senhora? - Não. Mais novo oito anos. Mas me fez esse favor ingrato! Morreu numa viagem. Fiquei sabendo dois dias depois, para receber só o corpo. Foi vivo, voltou morto. Parece que foi infarto. Isso não podia acontecer! Não eram meus planos. Agora, ele me deixou sozinha. - Já tem quanto tempo? - Nove meses. - E a senhora tem filhos? - Tenho dois. Mas não moram comi…

Olhos de dentro.

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Enxergue-me com olhos de dentro.  Olhos de demorada visão.  Olhos de profundidade.  Olhos de simplicidade. Veja-me só depois de ter enxergado a flor, o céu, a lua.  Recaia sua luz sobre mim com a mesma candura que se vê um pequenino.  Olhos em equilíbrio.  Veja-me, depois de agachar e sorrir com os olhos para uma criança, estando do tamanho dela.  Enxergue-me com olhos de panorama. Venha me ver com a intensidade do coração. que pulsa na mão no compasso da saudade. Veja-me, sinta-me. Dormindo. Me olhe com olhar firme. Procure os meus olhos. Fixos. Me olhe pelo interior... é no interior que se encara o verdadeiro olhar da alma e se elas sorrirem, ah!  Permaneça para sempre em mim.

De tanto.

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De tanto querer ser tanto derramei meu pranto sobre mim De tanto querer ser entrega podei minhas pernas a caminhar para si De tanto querer doar o amor Esvaziei-me de mim mesmo quase acabei vidro vazio, frio, sem tampa. guardado sobre a frieza de um balcão esperando resgate, ser refil do recomeçar De tanto derramar-me para o mar alheio ando precisando de outras águas para lavar, preencher, entupir trans-bor-dar E de tanto se dar, acabar cheia de novo de tanto receber.