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Mostrando postagens de Julho, 2012

A bateria de Bianca

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Lá da cozinha, Tia Junice ouvia uma bateção incansável vinda da sala. Não entendeu nada e ainda se questionou se haveria chamado alguém para arrumar o armário, a estante ou o encanamento talvez. Mas não, não se recordava. Foi então que se aproximou e viu Bianca, sua sobrinha neta de quatro anos, sentada no chão. Em suas mãos, duas baquetas feitas com lápis coloridos. No piso, viradas para baixo, dois vasos de plantas em tamanhos diferentes, o suporte de bíblia entre eles. Um pouco mais a frente, um castiçal com uma vela. Bianca tinha feito seu próprio instrumento. E a cada batida diferente, encostava o ouvidinho no ar para sentir a vibração e os diferentes sons causados. - Bianca, seu pai tá te ensinando a tocar bateria? - Não, tia. Ele me ensina a tocar guitarra. Bateria eu já sei. - continuava batendo e ouvindo a melodia criada. - Ah, sim.  - Mas esse castiçal da tia, você pode guardar ali em cima? - Tia madrinha, essa vela não pode sair daí. Tá iluminando a partitura. 

Sobre o dia do escritor

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O escritor não procura as palavras. Elas vêm até ele. E quando chegam, se organizam de tal forma a criar um conjunto belo e feio de histórias, ensinamentos, efusão de sentimentalidades.  As palavras materializam as vivências humanas. O que foi escrito não pertence contudo ao escritor. Ele é apenas um meio para propagá-las. Elas são livres, ou melhor, são de todos. Basta lê-las para eternizá-las. Um escritor é feliz e triste por ser meio. Feliz porque consegue esgotar-se diante de um teclado, uma folha e canetas. Desabafa indiretamente, alivia tensões e realiza-se ao saber que muitos outros dividem suas dores e alegrias. É triste também quando se vê solitário. É triste porque é uma pessoa como outra qualquer. E está sujeito a julgamentos, perdas, fracassos, infelicidade, inconstâncias. Entretanto, das tristezas o escritor dá um jeito de criar e registrar as nuvens que pairam sobre ele. Registra tudo porque tem o olhar sensível à vida. Aos consagrados, aos que já morreram e ainda vivem …

O dia de amanhã

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Por que não sabemos o que acontecerá amanhã. Sabemos, ou melhor, intuímos coisas boas e cotidianas. Queremos a continuidade da rotina. Família salva, emprego vitalício, harmonia. Não imaginamos choro nem tão pouco tristeza. Afinal, é de nossa natureza o desejo de felicidade. Mas as coisas não são assim. Saber, saber, sabemos nada. De repente, a vida de uma pessoa muda em um segundo. O que era conforto vira instabilidade; o trabalho, ócio.  O amor, ódio. Dois viram um. E com as montanhas de sentimentos e vivências vamos adquirindo experiência para tornar-nos alguém inteiro e profundo, um pouco mais entendedor das coisas da vida. Pelo menos era pra ser assim. O fato é que todo esse processo de viver doi. E doi porque sabemos que estamos sujeitos a passar por tudo. Ainda mais quando se vive ao pé da letra, amando e sentindo, além do corpo as dores do nosso submundo. 
A reflexão e turbilhão de pensamentos me assolaram diante da morte do atleta David Conrado Meira, nessa madrugada, tão chei…

O ofício da Secretaria

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Enquanto isso na Escola:
- Nathália, hoje a escola recebeu uma denúncia contra a minha pessoa da Secretaria de Educação. Acredita?
- Mentira, mãe. Eu falei pra senhora parar de ser engraçadinha demais. 
- Pois é, chegou um ofício lá e a diretora me chamou na sala dela. Já fiquei pensativa no que seria. Uma mãe ligou na ouvidoria da Secretaria. No papel tava escrito assim: 'Gostaria de elogiar e agradecer o carinho e amor que professora Juliana do 1ª E trata os alunos.'
- Ah, mãe! Rsrs

(Março 2012)

Chute do Guilherme

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Tia Jaque chamou Laurinha, 3 anos, para passar a mão em sua barriga: - Vem, Laurinha, passar a mão no Guilherme. Ele tá dentro da barriga da tia. A pequena se aproximou, apoiou-se nas coxas e acariciou o barrigão da grávida.  - Olha, só. É o bebê que tá aqui dentro. Sente! Ele vai te chutar.  De repente, Laurinha tirou a mão, fez uma careta e falou com raiva: - Eu chuto ele primeiro, tia! Saiu correndo.

Os aparelhos da praça

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Em plena Festa Junina da Capela São Francisco na Vicente Pires, minha mãe decide fazer ginástica nos aparelhos espalhados na praça pelo GDF. E roda pra cá, mexe pra lá. Minha tia e ela se divertem. - Tá vendo, mãe. Lá no Taguapark tem uma academia igual essa.
- Pois é, Nathália. Por que você não vai, mesmo?

Cactos e Orquídeas

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- Infelizmente você é chata, Nathália. - O quê, mãe? - É, minha filha. Você é chata. Para de ser chatona. - e desanda a rir. Sim, tudo é motivo de piada para dona Juliana, minha mãe. Um dia desses, dentro do elevador, uma pessoa mal educada soltou um pum e logo em seguida desceu deixando aquele cheiro 'delicioso' dentro da cabine. - Eco, pelo amor de Deus! A pessoa peida atrás da gente e vai embora? - Não, Nathália. Ele peidou na frente mesmo. - e começa a dançar uma dança doida fazendo careta.  Daí, esqueço o cheiro porque só consigo rir. Outra vez, quando morávamos em casa, ela estava varrendo a calçada. O sol se punha e minha prima chegou com o namorado dela. A música que tocava dentro do carro era o funk "cada um no seu quadrado". Minha mãe pegou a vassoura e começou a dançar no meio da rua. Dessa vez filmamos. E ela nem ligou. Outros hits fazem parte do seu repertório, como "tchanananana", "que isso novinha, que isso!", e todas outras que têm ritmo …

e-mail.

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Eu li o email dez vezes. E em todas elas me enchi de felicidade. As palavras saltavam em meus olhos como se delineassem um caminho e gritassem mandando o recado: 'é o começo, Nathália. É o começo!' E eu ali, de frente ao computador, em meio a confusão mental e gritaria de redação parei no tempo e fiquei apreciando a oportunidade que caía nos meus braços. Por um minuto não ouvi rádio, telefone nem vozes falando ao mesmo tempo. Eu e eu mesmo pensávamos em como aquela hora era boa. Gosto doce na boca, estrelas sobre a cabeça. Olhos de sorriso. Minhas bochechas rubras não se contentavam na posição normal do rosto. Fizeram-me mostrar os dentes para o nada. Boba alegre. 

Foi então que me lembrei de uma cena do longaJulie e Julia(2009), que havia assistido há duas semanas e me identificado de forma tão profunda. Julie e Julia vivem em épocas distintas, mas as histórias se cruzam e são contadas concomitantemente no filme. Julie é admiradora de Julia, uma mulher que aprendeu a cozinhar …

Sobre a serenidade

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As pessoas incitam a guerra e parecem ter prazer nisso. Preferem construir muros a pontes, apontam defeitos e julgam ao invés de ver o que há de bonito no objeto observado. Não pensam na sacralidade das coisas e nem como o outro as enxerga. As pessoas têm o dom de ver a vida somente pelo ângulo do seu olhar. Transgridem com base em interesses próprios. Esquecem dos demais e, por um minuto preferem fechar-se à sociedade e continuar insistindo em uma ideia apenas. As grandes instituições movem publicidade e até a dita "informação" de acordo com o que querem. Não é questão de ser imparcial, até porque a imparcialidade talvez seja uma preceito imaginário, no que tange ao mundo ilusório e inalcançável. É exatamente interpretar a vida com olhos de equilibrista. Olhos de carinho. Olhos demorados para enxergar por dentro. Mas não, o alcance da superficialidade é suficiente para tomar posse da verdade e ponto final. 
Nas ruas, nas famílias, nos meios de comunicação, entre as religiões…

Carta a um jardim inteiro.

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Mamãe,
Viver entre as flores foi uma das coisas mais belas que a senhora me ensinou.  Minha visão pequena demorou a perceber, achava estranho e até incomodava. Mas saía de casa e algo tocava em mim. Havia cultivado dentro do meu próprio lar os detalhes da vida e não sabia. E ao chegar carregada de stress, desequilíbrio e cansaço da rua, regozijava meu ser só de ver o verde dentro de um vasinho, ou um pequeno “rosa” a sorrir. Como elas me fazem bem e como ainda não sei tratá-las! É uma pena. Também, ainda nem aprendi (embora a senhora tenha me ensinado) a cuidar de mim mesmo, como posso tratar as flores como elas merecem? E por isso, peço que me desculpe...
Bom, o fato é que sem precisar das palavras, aprendi vendo a senhora plantar um jardim dentro do concreto e cultivar as cores de nossa família. Vi, sem que dissesse nada, uma completa jardineira da vida. Cuidando das plantas, das crianças, de gente. Observei e enchi-me de amor sem que necessitasse de perguntar ou questionar. Apenas ol…