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Mostrando postagens de Março, 2015

Papa Francisco e eu

Morava de frente para a varanda da residência do Papa Francisco. De repente, percebi uma movimentação estranha. O Papa corria de um lado para o outro, alguns homens de preto e assessores falando ao celular. Liguei a TV e a repórter já estava posicionada: "Voltamos ao vivo aqui da residência oficial do Papa. Agora a pouco as autoridades do Vaticano receberam uma ligação de um casal de coreanos pedindo ajuda para o pontífice porque estava sendo deportado do país. O Papa deve recebê-los a qualquer momento." Bom, pensei, que maravilha! Papa vai ajudar esse pessoal.
Meu telefone toca. É Francisco. "Nathália, minha filha. Me ajuda." Eu e o Papa éramos vizinhos e amigos. Ele queria que eu fosse com ele conversar com os coreanos, pois eram jovens e ele queria uma companhia. Na hora aceitei.
A cena muda. Já é noite. Como num filme, eu vejo alguém de capuz preto entrando no meu quarto, mexendo na minha caixa de agendas e cadernos antigos e pegando alguma coisa. Vai embora. …

Dialética da paixão

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O que é o "apaixonar-se" se não a projeção emocional afetiva no outro, enquanto ser que carrega um espelho de nós mesmos? Eu me vejo em alguém (o que sou ou o que gostaria de ser) e então gero um encantamento. Ali contém uma verdade só minha. Do encantar, começo a enquadrar a vítima de minha paixão em aspectos que saltam aos meus olhos e que necessariamente não correspondem ao ser do outro. Mas aí já é tarde. Já decidi mergulhar no mar desconhecido dos relacionamentos. Se ele embarcar em meu submarino, excelente. Uma hora a visão turva da água clareia ao amor, ou não... 
Já o processo inverso (de desapaixonar-se) é um pouco diferente. É como emergir das profundezas, ainda que sem fazer esforços para isso. É forçar as vistas a ver uma tempestade num mar supostamente calmo e tranquilo. É nadar contra a maré da insistência perene da ideia fixa chamada "o outro". Às vezes ele te ajuda, inconscientemente, sendo ele mesmo. E aí você começa a não se encontrar mais ali. Ini…

Vales de si mesmo

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Desceu os olhos pelo dorso de suas costas, como quem analisa as curvas e tenta encontrar alguma falha. Nada viu além das formas, a profundidade dos ossos que desenham os ombros até o pescoço. Via-se refletida no espelho, ainda molhada do banho recém tomado. A boca era meio pele e meio rosa, vestígios da maquiagem da manhã de trabalho. 
Fechada, apresentava um desenho delicado e marcante. Era despretensiosa nesse olhar a si mesmo. Mas viu beleza ali. Olhar amêndoa e penetrante para dentro, querendo ver além do reflexo desnudo na toalha. O que lhe faltava? O que lhe sobrava? Pensou nas ausências e silêncios, nas lacunas que se formam com o tempo. Nas palavras que foram ditas e esquecidas; e que lhe ajudaram a moldar até ali. Era aquele estágio que chegara. 
Não sabia qual, mas era. Estava alegre e triste, ainda que em estado de felicidade. Nada conseguiu responder para aquela que lhe retribuía as indagações vindas do espelho. Deixou as respostas de lado. Nem sempre (ou melhor, nunca) são …

O respiro do dia

Ela parou na porta da sala da coordenação dos professores. E ficou olhando ansiosa para dentro, observando os movimentos da Tia Juliana. Era da turma dela o ano passado. De repente, eu, - que precisava espairecer e enxergar o sentido da vida em alguma coisa e por isso estava lá - acenei pra ela e sorri. Ela me sorriu de volta. Nessa hora minha mãe percebeu a visita e a chamou para entrar na sala. Ela veio correndo, com seus passinhos firmes de criança saudosa. Professora e aluna se abraçaram. Baixinho, ela disse:
- Sabia, tia, que já sei escrever sozinha!
- Parabéns, minha linda! Você está muito esperta!
E aí ela voltou a correr no recreio. E a minha mãe voltou ao seu ofício de ajudar a humanidade. (Dos pequenos grandes momentos que valem a vida, quando tudo no mundo é holofote de abismo. Ainda que as coisas estejam do avesso, Deus continua sendo bom.)