Dialética da paixão



O que é o "apaixonar-se" se não a projeção emocional afetiva no outro, enquanto ser que carrega um espelho de nós mesmos? Eu me vejo em alguém (o que sou ou o que gostaria de ser) e então gero um encantamento. Ali contém uma verdade só minha. Do encantar, começo a enquadrar a vítima de minha paixão em aspectos que saltam aos meus olhos e que necessariamente não correspondem ao ser do outro. Mas aí já é tarde. Já decidi mergulhar no mar desconhecido dos relacionamentos. Se ele embarcar em meu submarino, excelente. Uma hora a visão turva da água clareia ao amor, ou não... 

Já o processo inverso (de desapaixonar-se) é um pouco diferente. É como emergir das profundezas, ainda que sem fazer esforços para isso. É forçar as vistas a ver uma tempestade num mar supostamente calmo e tranquilo. É nadar contra a maré da insistência perene da ideia fixa chamada "o outro". Às vezes ele te ajuda, inconscientemente, sendo ele mesmo. E aí você começa a não se encontrar mais ali. Iniciou-se a cura. E distancia-se da ponte que construiu com o peito dele. E vai voltando a ser só a si mesmo, sem precisar se enxergar em ninguém. Porque descobre, enfim, que é melhor pertencer-te do que tentar habitar corpos vazios de reciprocidade. 

E segue a vida... Até a próxima viagem.

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