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Mostrando postagens de Outubro, 2014

O canto do galo

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Há certa sacralidade em ouvir o galo cantar. Eu, aqui nesse quarto escuro, me recordo de minhas avós. O canto era sinal para que levantassem . Ai elas encaravam a vida. Nos olhos, firmemente. O galo me lembra que, daqui a pouco, Deus vai amanhecer o dia. E eu preciso olhar fixo para a vida. 
O galo remete-me às terras goianas e mineiras. Ao cheiro do crepitar da lenha no fogão. Do café coado. Do pão de queijo assado e quente na mesa. O galo emerge detalhes de uma trajetória que adocicam a minha existência. 
O galo canta. E eu ouço até o radinho velho rezando o terço logo cedo. O galo canta e posso me enxergar debaixo do mosquiteiro no "quarto da cama de casal" da chácara do mestre, em Formosa. O galo canta e eu vejo uma bacia azul de minha vó Hilda. 
O galo canta e eu fico revirando memórias. 
Memórias.

D.O.R

Hoje no trânsito parei atrás de um carro cuja a placa tinha a sequência de letras: "DOR". Primeiro, a DOR me causou espanto. Fiquei chocada como alguém se submete a andar todos os dias em companhia da DOR por aí. Mas depois me acostumei com a DOR à minha frente. Ainda assim me intrigava. Então decidi que registrar o momento com a DOR tão perto seria interessante. Peguei o celular com dificuldade. Mas a estrada não parava. A DOR ia ficar sem foco. Me angustiei. Tentei umas três vezes. Nada. Era melhor parar. A DOR podia me causar um acidente. Fiquei só contemplando então. Tinha até uma trilha sonora, a DOR. "Comfortably numb". Ai, DOR! Tava começando a gostar de você. Mas aí um carro entrou em nosso meio. E perdi você de vista. DOR, você sumiu no caminho, sem que eu percebesse! Então seguimos separadas. Percebi, ao fim, foi interessante te conhecer. E deixar você ir também. 
Não vou me preocupar. Ainda vamos cruzar por aí! Como disse uma amiga minha, a dor é passageir…

Diana

Diana tem os olhos grandes e um bico emburrado, embora saiba sorrir também. Hoje está com os cabelos enroladinhos bem esticados e presos por duas tranças laterais. A amarração foi tão forte que criou um caminho de couro cabeludo no meio da cabeça. Sobre a testa, os fiapinhos soltos mostram que o penteado foi feito antes de ir pra escola. Agora é depois da escola. É por isso que está com raiva. Queria ir pra casa. E a mamãe ainda inventa de passar no salão de beleza. Pelo menos ganhou colo e pôde enfiar o rosto entre o cangote materno e os cabelos com luzes cheirosos dela. 
Diana é pequena para a idade e tem as pernas e braços bem gordinhos, cheios de pelinhos pretos. Nessa quinta feira está de vestido rosa claro com bolinhas azuis escuras (que bate em suas canelas) e um tênis preto com o solado alaranjado reluzente. Diana está colorida como um jardim florido. As bochechas também estão pintadas. Será que foi a canetinha na aula de Artes? Não tem como saber. Diana pouco fala. Embora do…

Carta aos professores

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Nós estávamos na fila da Riachuelo quando um rapaz com mais ou menos 30 anos chegou e cutucou a minha mãe. "Professora Juliana?" "Sim!", ela respondeu. "Lembra de mim? Sou fulano, a senhora me deu aula lá na 31 de Ceilândia." Minha mãe lembrava. Os dois se abraçaram. Ele a agradeceu pelo dia em que ela bateu na porta da casa dele e conseguiu convencê-lo de voltar para a escola. Aquele olhar carinhoso mudou a sua vida. Hoje estava trabalhando, havia formado em química na UNB e era pai de família. Essa memória já tem alguns anos.

Outra vez, ela chegou em casa contando que havia recebido, pela primeira vez na vida, um comunicado da Regional de Taguatinga sobre o seu trabalho. Gelei. Já imaginei confusão. Mas na verdade era só um elogio formal ao modo como a professora Juliana conduz suas aulas. Essa memória também tem alguns anos.

Quando criança, confesso. Morria de ciúmes das cartinhas que recebia. Mãe, perdão. Já pensei, na minha ignorância de filha única…

Um bebê com a Peppa e Deus

Estava na missa. E de tão cheia de gente, pouco se via e ouvia as palavras do sacerdote no altar. Era hora da homilia. Ainda tentei prestar atenção. Forcei os ouvidos. Quis me desligar das conversas paralelas. Mas meu olhar não conseguia alcançar o microfone. Muitas pessoas circulavam no corredor. Vi-me então contemplando a cruz enquanto o pensamento fazia um cruzeiro por meus litorais interiores... De repente, meus olhos recaíram sobre a minha mãe e Guilherme,  meu primo de 1 ano, logo três bancos a frente. Ela o segurava com calor e firmeza. Ele segurava uma "Peppa"e um "George" com firmeza. Em seguida ele a fitou com aqueles olhinhos de amor. E por um momento eu imaginei ver cristais brilhando. Ela fez cosquinhas. E ele morreu de rir e depois a abraçou. E assim ficaram por um bom tempo. Um olhar. Uma mordida. Um sorriso. Um afago. A sequência se repetia... Vi Deus. Ele estava bem ali, naquela homilia vívida e pura das crianças. Ali, Ele ensinou o Evangelho. Era …

Em guerra.

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Talvez todas as minhas postagens na Internet sejam uma tentativa frustrada de dizer: "olha! Tô aqui, viu!" Não me esquece. Porque você não sai da minha cabeça nenhum dia sequer. E a todo momento, silencio minha voz, que quer gritar seu nome e não deve. Emudeço a mão. Calo o coração. Travo as palavras na língua. Vou vivendo só com dez porcento de mim. 
Descubro, enfim: Minha alma virou território para uma guerra fria, que se passa sem alardes externos, mas derruba aviões, lança mísseis, destrói habitats, trava luta corporal e compete armamentos no interior. Nesse conflito, o confronto se dá entre o ego e a consciência. E ainda assim, mesmo sendo você só um expectador disso tudo, o muro de Berlim parece nos dividir Alemanhas. Tão concreto e tijolo esse afastamento, que nem sei... Será que do lado de lá você pode me ouvir? Pois eu te ouço daqui. Metade de mim, sente sua presença interior. Outra metade também. Mas ainda paira em dúvida sobre tudo isso. Afinal devaneios e intuiç…

O lançamento do meu primeiro livro

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No dia seguinte, eu só conseguia chorar. Estava transbordando e não sabia. Era como se minha alma precisasse extravasar toda a emoção vivida na noite anterior, de forma tão inteira, completa, plena. Tão cheia de Deus. Havia vivido um sonho. Ou sonhava que estava vivendo. Nem sei. Não precisamos saber de tudo o tempo todo. Na verdade, nem se quiséssemos conseguiríamos. Ali, era o momento de sentir. Fluir. Até flutuar. Meu coração já começou a dar solavancos quando estacionei o carro no shopping, peguei a cesta com as lembrancinhas e subi para a Livraria. O passo, curiosamente, estava em consonância com as batidas no meu peito. Cheguei, encontrei um amigo que veio me ajudar na organização e entramos.
A sensação, do começo ao fim, era de anestesia. Talvez Deus tenha trabalhado uma serenidade dentro de mim imprescindível para não explodir, não desmaiar, não dar um infarto, não ir da linha da felicidade para a tragédia. Meus olhos marejados de lágrimas internas só conseguiam brilhar com …

Desabafo Eleitoral

Quis ser apartidária. Afinal ninguém é tão Deus a ponto de merecer adoração política. Vota-se com a consciência que lhe é agradável. Todo mundo com suas razões, ninguém certo por completo. Mas muitas coisas tem me chateado nesse processo eleitoral. Olha que não sou "ningas" para falar nada. Mas vale o desabafo. 
Primeiro, e antes de qualquer coisa, lembre-se: a sociedade sempre terá problemas. Nada nesse mundo consegue atingir a perfeição divina. Somos todos homens. Então, não pense que da noite para o dia seu candidato escolhido DEVE conseguir, como num passe de mágica, melhorar as emergências dos hospitais, acabar com a violência e deixar o trânsito lindo. Sempre haverá pessoas doentes e hospitais particulares também lotam pronto socorro. A violência gratuita vem do ser humano (ainda que a constatação seja triste). Rivais de gangues continuarão se matando. Casais sem Deus podem ainda perpetuar brigas dentro de casa. E as pessoas vão continuar comprando carros. 
Segundo, não …