Carta aos professores

Tia Juliana contando história na biblioteca (2013)


Nós estávamos na fila da Riachuelo quando um rapaz com mais ou menos 30 anos chegou e cutucou a minha mãe. "Professora Juliana?" "Sim!", ela respondeu. "Lembra de mim? Sou fulano, a senhora me deu aula lá na 31 de Ceilândia." Minha mãe lembrava. Os dois se abraçaram. Ele a agradeceu pelo dia em que ela bateu na porta da casa dele e conseguiu convencê-lo de voltar para a escola. Aquele olhar carinhoso mudou a sua vida. Hoje estava trabalhando, havia formado em química na UNB e era pai de família. Essa memória já tem alguns anos.

Outra vez, ela chegou em casa contando que havia recebido, pela primeira vez na vida, um comunicado da Regional de Taguatinga sobre o seu trabalho. Gelei. Já imaginei confusão. Mas na verdade era só um elogio formal ao modo como a professora Juliana conduz suas aulas. Essa memória também tem alguns anos.

Quando criança, confesso. Morria de ciúmes das cartinhas que recebia. Mãe, perdão. Já pensei, na minha ignorância de filha única, em rasgá-las. Que vergonha da Nathália de cinco anos. Todas diziam, em meio a florzinhas e corações coloridos: "Tia Juliana, eu quero que você seja mais que a minha professora. Você pode ser minha mãe?" Hoje eu quero guardá-las com todo o carinho possível. E que orgulho de todas elas. Que orgulho.

Teve um 15 de outubro que a senhora chegou lá em casa com vários presentes. Além de seus alunos do ano, outras crianças mais velhas também lembraram da senhora. E, olha que danadinhos. Fizeram a mãe comprar uma coisinha pra tia Juliana e não pra professora da série atual. E a nossa estante reunia imagens de louça, pequenas bíblias com trechos do Salmo, flores de plástico. E o guarda roupa se enchia de cremes e hidratantes da natura, batons, potinhos e panos de pratos.

Recentemente a senhora teve de se ausentar da sala por conta da saúde. E decidiu ir entregar o atestado pessoalmente na escola. Na verdade queria voltar a dar aula de muleta e tipoia, pensando na aprendizagem das crianças. Ninguém deixou. Nem o médico. Mas, olha, mãe. Até apoiei a ideia de ir com a senhora no colégio. Mas depois me arrependi em dois segundos. A senhora teve de passar em três salas. Porque mil crianças pararam para saber o que havia acontecido com a professora Juliana. E foram tantos abraços e beijos e desejos de melhora. Mais de uma hora só pra entregar um atestado. Mas a raiva logo se esvaiu em orgulho. Mais uma vez.

Também fiquei chateada na adolescência quando a senhora levou minha caixa de lenços, minhas camisetas que eu gostava de sair, meus acessórios de cabelos para enfeitar as meninas numa dança da festa do folclore. Claro, só fiquei sabendo disso quando vi com meus próprios olhos a sala inteira vestida com coisas de Nathália. Mas a apresentação foi tão linda e cheia de significado, como sempre, que até dei as coisas pra senhora presentear as meninas. E deixei (como se precisasse), a senhora fazer isso todos os anos.

Olha, mãe. Só mais uma coisinha. Quando a senhora chegar lá em casa com várias frutas diferentes e não permitir comer de novo, só porque "é para os alunos aprenderem as letras comendo coisas que comecem com elas", eu não vou fazer nada! rsrs! Vou achar lindo e genial, como sempre. E vou até te ajudar e assistir essa aula, se puder. Porque eu amo admirar a senhora dar aula.

Nem vou falar ainda das vezes que te vi contar histórias com tanta maestria e enchi a boca para falar da sua personagem na biblioteca, a Vovó Júlia. As histórias sempre fizeram parte de minha vida. Os livrinhos também. Hoje os "livrões". E eu sei que tudo que sou hoje veio desse incentivo desmedido à leitura como portas para os sonhos. E a senhora dança igual índio. Inventa teatro. Faz caras e bocas. Compra bichinhos para ilustrar. Brinca de ser criança junto de suas crianças. E eles ficam "de novo, de novo, de novo." Mãe, eu também fico querendo gritar "de novo!"

Nesse dia 15, pena que a senhora está de folga. Porque se não ia dar uma passadinha na Escola Classe 08 de Taguatinga só pra ser chamada da "filha da Tia Juliana". E aqui eu te confesso mais uma coisa: meu coração se enche de alegria quando eu chego no colégio e os meninos me apontam: "Olha ali a filha da tia Juliana!" "É ela mesmo!" "A filha da tia juliana é bonita!" Ando pelo corredor, e me abraçam porque nasci de teu ventre. SÓ PORQUE! Ventre abençoado. Ventre casinha de Deus. Ventre de mãe professora. Esse orgulho só posso dividir com o João. Ah, como eu me sinto de ser sua filha!

Agora vou parar porque já estou chorando. Feliz dia dos professores! Ainda que o cansaço dos 29 anos de  docência recaia sobre seus ombros, a senhora sempre vai ser a PROFESSORA Juliana. Aquela que trouxe à vida, crianças, jovens e adultos, ensinando-os a descobrir e decodificar o mundo das palavras. Que missão mais linda. Que missão mais linda.

Te amo mais que a mim.
Beijos, sua filha.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sadomasoquismo e sociedade

Poema de terça-feira

Visita ao jardim de dentro