Ao dia mundial do escritor


Tenho pra mim que Deus é escritor. E não jornalista. Deus é dado à literatura da vida. Não à sua factualidade. Deus é da ordem das entrelinhas, dos subentendidos, das ambiguidades, da subjetividade. Não é da ordem da notícia rápida, descartável, superficial, de respostas prontas. Deus é da ordem da escrita em profundidade. Daquelas que contam histórias e começam pelo meio, ou pelo fim, ou por qualquer lugar. Não importa a ordem. Deus não dá lide* pra vida. Nem responde taxativamente as perguntas quem, como, onde, como, porque e pra quê. Deus nunca deu chance para a objetividade, muito menos para a falácia da imparcialidade. Deus não escreve manuais de redação. Deus escreve romances. Deus CRIA. É narrador por excelência. Deus é dado à ARTE literária. Deus não é dono de jornal e também não quer vender. Deus é de contextos. E não de certos e errados. Tenho pra mim que Deus prefere fruir do que se informar. Deus é reflexão, não é informação. Deus é da ordem das esperas. Não do deadline**. Deus dá de ombros para a audiência, para os cliques, para as vendas. Deus prefere a construção paciente de uma frase. A justaposição das palavras. As asas que elas dão. Deus ama as palavras que voam. Não as que nos assentam, engessam, aprisionam. Na minha humilde opinião, se algum dia Deus quis ser jornalista, andaria na corda bamba do jornalismo literário. Ia se enveredar pelas histórias dos comuns. Afinal, Deus pouco se importa com as fontes oficiais. Porque aos olhos Dele, qualquer um pode virar fonte oficial da sua própria narrativa de vida.

Assim, concluo, essa aspirante a escritora, que Deus é meu parceiro das histórias. E pensar assim de certa forma alivia.

Feliz dia do escritor! Essa profissão adquirida com o tempo, o dom, a construção de uma vida. Essa profissão que é dada pela sensibilidade do olhar o mundo. Feliz dia!

Pequeno Glossário:
* Lide: o primeiro parágrafo de uma notícia que deve responder as perguntas básicas do fato: quem, como, onde, como, porque e pra quê
** Deadline: a linha da morte. O prazo máximo para a entrega de uma reportagem. Uma resposta de qualquer apuração ou informação.

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