A paixão de Jesus nos dias de hoje



E se a paixão de Cristo tivesse acontecido na era da informação, até os ateus compartilhariam textos sobre Jesus. Ficariam ao lado dos direitos humanos, sentiriam a dor da flagelação e a cruz pesaria no coração de cada telespectador da imagem. As redações jornalísticas ficariam polvorosas procurando fontes que comprovassem a idoneidade da vítima. Levantariam a ficha de Jesus, de Pilatos, de Judas, dos doze, dos fariseus do templo, de Barrabás e até fariam um "povo fala" com os judeus que gritaram "crucifica-o".

Os repórteres já estariam loucos para um furo de reportagem no dia seguinte, e seria nessa hora que Maria seria tão procurada, como nunca foi em toda a história. Talvez as tvs e rádios quisessem fazer links com os apóstolos para que eles pudessem recontar a trajetória de Jesus até ali. O soldado que enfiou a lança no corpo morto de Cristo também seria procurado para dizer como jorrou água Dele misteriosamente. E especialistas das mais renomadas universidades seriam convocados para explicar o fenômeno.

Suítes e mais suítes do caso. A sequência de matérias seria: primeiro a condenação injusta. E toda a expectativa gerada. Depois a morte em si mesmo. E milhões de vídeos do momento seria compartilhados. Em seguida a família e amigos. Os jornais sensacionalistas explorariam o "drama" de Maria. O dia seguinte. A reviravolta das investigações sobre os mandantes do crime. Os mistérios que envolvem a crucificação, como a mudança brusca do tempo, a queda do Templo, o suicídio de Judas, a negação de Pedro e a previsão feita por Jesus dias antes. Aí teria outra matéria sobre a vida pregressa de Cristo e todas as coisas que Ele fez que o levaram até ali. Vejo até a manchete: "Quem era este homem que se dizia filho de Deus, previu a sua morte e nada fez?" Criatividade não faltaria.

As editorias seguiriam a humanidade dos fatos e daria uma brecha ou outra para as coisas sobrenaturais. As redes sociais só falariam disso. E de uma hora pra outra Jesus seria aclamado porque a sua dor tornaria-se pública e a injustiça falaria mais alto. Talvez culpassem a Dilma ou o Aécio. Blogueiros e colunistas fariam milhares de posts analisando o fato sob diversas óticas. Isso, em três dias.

Até descobrirem que o corpo de Jesus havia sumido. Aí mais uma enxurrada de notícias entraria na boca do povo. Quem roubou o corpo de Jesus? "Dizem que ele ressuscitou!" "Procurem estas mulheres que o viram!" "Agora!" "Liga para os apóstolos, manda equipe para a casa de José de Arimatéia". "Liga para a UNB e procura alguém da área de metafísica." Seriam as ordens dos chefes das redações.

E, embora a imprensa estivesse atrás do furo, dariam visibilidade para a história. E, embora os que não acreditassem em Deus não acreditassem em Deus, seriam evangelizados pelo reconhecimento do outro na figura de Cristo. E, embora que fosse de forma desordenada, a internet só falaria da paixão de Jesus. Até livros poderiam ser lançados. E o novo testamento seria o primeiro deles. Por muito tempo tudo ficaria na boca do povo. Talvez para sempre. E sobretudo, haveria o respeito pela história. Haveria...

Agora penso eu. Tudo aconteceu há dois mil e quinze anos. Sem internet, sem TV, sem rádio, sem imprensa para documentar como hoje. Apenas a comunicação oral e a escrita primária foram capazes de perpetuar a história. Quem sou eu para negar? Quem sou eu para não crer? Ninguém.. Ninguém... Jesus, obrigada por me ensinar como ser um ser humano melhor por meio da sua paixão. Obrigada, por me salvar, mostrando que posso salvar a mim mesmo se apenas acreditar no terceiro dia, sem deixar de viver de fato os dois anteriores.

Te amo nesta sexta santa e eternamente...

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