Visita ao jardim de dentro



Foi uma imersão em mim mesmo. Abri os olhos de dentro e vi Nathália, em frente ao portal de um jardim. Era grande, vasto e o céu estava azul celeste. Não havia nuvens. Era uma tarde luminosa. Compreendi. Havia conseguido acessar o jardim do meu coração. Começara uma viagem à minha alma. Entrei. Dava para ouvir o barulho do ranger das dobradiças enferrujadas. Lá dentro, a grama estava sendo cuidada. Algumas árvores davam frutos, outras, secas. Brotos e flores por todos os lados. Um banco de pedra.  Uma mesa com uma máquina de escrever ao fundo. 

De repente ouço alguém chamar meu nome em profunda alegria. É um homem. Não consigo ver seu rosto com nitidez por todo o tempo. Como quem acaba de acordar, enxergo flashes. Vejo de relance seu sorriso frouxo, em seguida o seu olhar verdadeiro e tão paterno. Mais que a fisionomia, eu consigo reconhecer a essência criadora, única e tão perfeita. É Jesus quem me recebe. Suas vestes longas brancas estão amarradas por um avental sujo de terra e, para me abraçar, ele se levanta, bate e limpa as mãos. 

"Filha! Você conseguiu entrar! Seja bem-vinda. Estou trabalhando.Cultivando algumas plantinhas e limpando aquilo que é preciso tirar. Como você tá? Fique à vontade. Senta naquele banco. Não precisa fazer nada. Apenas observe." Minha voz estava muda. Mas eu sei que Ele conseguia ouvir meu silêncio. Nosso abraço é interrompido pela chegada de mais uma pessoa. É o barulho do portão quem anuncia. Jesus logo descobre a identidade da nova visitante. "Mãe! A senhora chegou! Ela conseguiu entrar. Estamos aqui!", exclama com alegria.

Baixinha, mas com o corpo forte de trabalho. Vai chegando Maria. Manto azul que cobre a cabeça, vestidos longos e brancos também. O olhar terno e extremamente maternal. Carrega o maior amor do mundo em suas pupilas. Também resignação, serenidade, humildade. Em seus braços está uma cesta de frutas e sementes diversas. Vem até mim, e nos entendemos por olhares e ausências de palavras. Recebo mais um abraço. Forte, comovente e confortante. É a própria paz essa dupla. Nada falamos. Tão logo Nossa Senhora começa a cultivar, podar as folhas e galhas. Jesus e eu continuamos nossa conversa.

"Logo ele vai chegar, minha filha. Eu e mamãe trabalhamos para que o seu jardim esteja limpo e cuidado. Seu coração precisa estar preparado para recebê-lo. Aquieta. Confia. Tranquilize essa agonia. A manutenção do seu jardim depende de você. Dos seus pensamentos e emoções. Acredita. Ele está pra chegar." Olhava Jesus em total entrega. Perplexa com tamanha experiência. Agraciada e sem saber porque merecia tanto. Jesus segurou minhas mãos e voltou aos afazeres. Eu sentei e fiquei a observar tudo aquilo. Meu pai e minha mãe do céu, cuidando daquele coração. Fechei os olhos e a cena foi sumindo, sumindo, sumindo...

Não foi um sonho. Foi uma visão. Aconteceu em uma noite de sábado, em setembro do ano passado, no Encontro de Jovens com Cristo. Era o momento de adoração ao santíssimo. Muitos intercessores oravam em línguas. Moças e rapazes repousavam no espírito. A música era linda. A capela estava enfeitada como se estivéssemos sentados em nuvens espalhadas pelo céu. Enquanto eu meditava, rezava, chorava, clamava e pedia, me vi envolta da cena descrita acima, tão profunda. Tão real. Incrédula que sou, não sabia se havia sonhado, inventado ou qualquer coisa. Foi então que, na minha síndrome de Tomé, pedi a Deus a confirmação. Queria que Ele desse um sinal, por meio de uma música no teatro que ia assistir em seguida. Pois a canção escolhida na peça foi: "Encontrei-me com Jesus no jardim", do Anjos e resgate. Chorava, chorava, chorava, chorava, chorava. Mas como Deus não dá ponto sem nó, provou-me mais uma vez. Assim que acabou o encontro, fui recepcionada pela minha família. Minha vó Maria me presenteou com um pingente religioso: Nossa Senhora dentro de um coração. Nunca havia visto nada igual.

Presenciei um amor tão grande, tão grande, tão grande que calou minhas incertezas. E mais: a maior intenção da minha ida a esse final de semana espiritual era acalmar o coração em relação aos relacionamentos, ou a ausência deles (temporária). E ganhei esse presente.

Precisamos ter fé! Precisamos! A fé brilha os olhos. A fé enche o peito de esperança. A fé ressalta a poesia da vida. As entrelinhas. Aquela magia que traz abundante rio aos dias de deserto tão vividos ultimamente. A fé nos leva ao caminho de nós mesmos! Essa complexa estrada da vida...

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